lugares pouco comuns

Projecto sobre geomorfologias e aspectos cénicos da Costa Vicentina. Um percurso pelas escarpas de um dos mais preservados litorais da Europa: a costa ocidental do Algarve.

   
 

A alegria da descoberta (ou redescoberta?!). Descobrir o que já pensávamos descoberto. O sentimento de privilégio do avançar por lugares pelos quais poucos homens passaram. Percursos de uma ancestralidade pré-histórica onde, certamente, navegaram outros olhares. Com outras intenções, mais ou menos objectivas. Trilhos de animais bravios, num mundo cada vez mais domesticado (onde os selvagens são outros e a "selva" já não se encontra no mesmo lugar).

Olhamos para o vazio e observamos alguns pescadores, ao longe, como uma referência, um ponto na imensidão do nada. Assumindo um papel preponderante na nossa percepção visual! Pontos que alteram e direccionam o olhar. Sem eles a noção de escala deixa de existir e esta inexistência conduz-nos a outros caminhos: os da abstracção. Caminhos intencionais! De uma opção que reforça a ambiguidade da imagem. - Serão gigantescos penhascos ou pequenas lascas de xisto? Nuvens que vagueiam lá em cima ou as fluidas águas do mar? - De pouco interessa quando o que importa é o transmitir de uma emoção, de um sentimento. Acentuar a subjectividade das formas com a subjectividade do olhar. Registar o que geralmente é pouco visto emoldurando-o, inserindo-o num outro conceito arrancando-o ao real, seccionando-o. Quadros de uma natureza profunda, forte e alterosa. Capaz de produzir tempestades medonhas e calmas perturbadoras.

" (...) O vaguear do olhar é circular: tende a voltar para contemplar elementos já vistos. (...) ", diz Vilém Flusser, filósofo checo, num dos seus ensaios. E é realmente fundamental voltar por diversas vezes aos mesmos locais onde já estivemos outras tantas vezes. É a angústia do descer para depois ter de subir para voltar a descer e ter necessariamente de subir de novo. Uma sucessão (repetição) de propósitos que traçam o nosso percurso e acentuam os nossos objectivos.

Caminhar com os olhos, o coração e o conhecimento. Contemplar é ver com todos os sentidos. É sentir a forma e guardar o momento. E estes são realmente momentos elegantes, distintos ("Moments of Grace", já alguém lhes chamou...). São momentos de uma parcialidade afectiva interligada com a vontade, cada vez maior, de querer conhecer mais e melhor o conteúdo de um mesmo momento. Sim, porque o anterior e o posterior não são o mesmo. E o que fica entre ambos teve, realmente, uma razão muito forte para o ser.

Lugares Pouco Comuns são os que abanam a trivialidade e que por si só, somente pela condicionante de o serem, enaltecem a sua existência. São frases esculpidas, caracteres abertos a branco sobre relevos e superfícies disformes, com signos cujo sentido singular apelam à divagação. Para uma observação pausada a sugerir traduções do nosso secreto imaginário: Seios de areia; Janelas disformes, para Gaudi; Jangadas para Saramago; Naves que investem na bruma; ... ou tudo aquilo que possibilite a nossa mais íntima interpretação.

O Sul Ocidental, da foz do rio Seixe à Pedra do Gigante, em frente ao Cabo de S. Vicente. É este o meu laboratório de emoções. O meu (imenso) atelier. É aqui que esquisso os meus projectos e onde os esboços dos meus ideais são estruturados. É aqui que regresso sempre que posso, até que um dia este regresso seja definitivo. Pensamentos que tomam forma, sob a forma de memórias de infância. - Lembras-te avó?: Alguns pequenos peixes para o jantar!... Em frente à Poça da Rã... - São imagens que renascem através da sua revisitação, que amadurecem as nossas opções e ajudam a definir a temática da nossa existência.

Tanto mais pode ser visto e interpretado. Para tal bastará que o compreender dos feitios antropomórficos, zoomórficos e de tantas outras morfologias seja feito com a pureza dos sentidos e a honestidade intrínseca de cada um de nós. Efémeros contempladores dos eventos terrenos.

Nota do autor |
Este trabalho é para mim um grande desafio (talvez o grande desafio). Fotografar sem incluir pessoas! Onde estão elas e o calor do relacionamento próximo? E as histórias que gostam de nos contar? Onde estão os gestos e os olhares que se escondem por trás das palavras!? Para onde foi a sua omnipresente acção?... Será esta presença tão importante como a sua ausência?!...

   
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