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É
chegado o mês Julho e os preparativos são inciados. Preparam-se
os barcos, as pinturas, as limpezas, afinam-se os motores
e os compressores, reúnem-se as companhas e avança-se para
mais uma época de apanha submarina de algas. São cerca de
três meses de uma actividade que, ao longo de alguns pontos
da costa portuguesa, se revela como uma das mais duras tarefas
executadas sob os auspícios do reino dos mares.
Um ciclo de trabalhos que se inicia na Carrapateira e na Azenha
do Mar, em terra, bem cedo pela manhã. E é junto ao "muro
das lamentações", como alguns chamam ao muro que fica virado
para o mar da Azenha, que os apanhadores de algas olham o
mar e decidem se o dia é de trabalho. É aqui também que se
reúnem quando o mar está mau e é aqui ainda que conversam
acerca do futuro da actividade e recordam outros tempos de
safra. Quando o mar permite avançam, em pequenas chatas, em
direcção aos barcos amarelos que utilizam na recolha das algas
(a cor amarela atribuída a estes barcos, juntamente com a
bandeira azul e branca, serve como sinalizador imediato da
actividade e da presença de mergulhadores nas imediações).
Existem dois tipos de embarcação. Os barcos maiores, em regra,
comportam seis homens a mergulhar e dois "moleques" (nome
dado aos homens que recolhem para dentro do barco os sacos
de rede cheios das algas apanhadas pelos mergulhadores) a
trabalhar a bordo. Por seu lado, as embarcações mais pequenas,
que não são mais do que chatas adaptadas com um compressor
a bordo, comportam geralmente dois mergulhadores e um "moleque".
Todo o processo é extremamente duro. Durante os preparativos,
os mergulhadores não descuraram qualquer pormenor relativo
à sua indumentária e acessórios, pois sabem que qualquer pequena
falha com o fato de mergulho ou o aparelho que utilizam para
respirar pode condicionar o bom desempenho no fundo e aumentar
o risco de acidentes. Também o desconforto e o frio, consequências
da longa permanência na profundidade, são alvos de atenção
redobrada. Antes de entrar na água, os apanhadores de algas
ligam os pulsos com improvisadas ligaduras que facilitam o
trabalho e minimizam a dor, cobrem o corpo com substâncias
oleosas para melhor vestir e adequar o corpo ao fato de mergulho
e usam, sob o fato, collants de senhora. Há mesmo alguns que
fazem deste "equipamento" uma dupla utilização, vestindo nas
pernas um par destas meias e utilizando outro no tronco, fazendo,
para este efeito, um buraco por onde entra a cabeça e vestindo
os braços e parte do tronco com o restante. Estes collants
facilitam os movimentos e evitam que o fato de mergulho provoque,
pela sua acção directa sobre a pele e devido à repetição dos
gestos, cortes na epiderme junto às articulações. Estes cortes,
nalguns casos bastante profundos, demoram a sarar, visto que
todos os dias no trabalho, debaixo d'água, as feridas são
expostas ao roçar dos fatos e à água salgada. Há casos em
que as feridas se transformam em autênticas chagas, tendo
já levado um ou outro apanhador a desistir desta actividade.
As mãos são cobertas com luvas de borracha (daquelas geralmente
usadas nas cozinhas para lavar a louça) e alguns utilizam
umas improvisadas dedeiras de tecido ou borracha que lhes
protegem os dedos dos ouriços escondidos entre as algas ou
das saliências mais aguçadas das rochas às quais as algas
se fixam. Para além destes cuidados, os mergulhadores colocam
ainda, sobre as costas, uma tábua que os irá ajudar a manter
direito o tronco durante a permanência no fundo, evitando
as dores resultantes de uma posição forçada. Cuidados empíricos
que, de certa forma, reduzem o esforço.
O barulho dos compressores anuncia mais um dia de trabalho
no fundo. Este barulho revela que o ar está a ser recolhido
e enviado pelo compressor através de longas mangueiras (chegam
a medir 50 metros) para os apanhadores. As mangueiras ligam-nos
à vida e à superfície. É através destas que respiram e que
são puxados sempre que o saco de rede se encontra cheio de
algas.
Depois de todos os preliminares a bordo, é dado início à descida.
Um salto, uma cambalhota ou uma mais profissional queda de
costas para a água dão início a mais um dia de apanha de algas.
A descida é feita de forma rápida e objectiva rumo ao fundo.
Aí chegados, começa o ciclo que irá durar de seis a oito horas.
Uma rede com uma "boca" de ferro, atada à cintura, serve de
recipiente para as algas que vão sendo apanhadas à força de
pulsos. Movimentos repetitivos que se sucedem até encher a
rede com as almejadas algas, a que chamam limo ou erva. Depois
da rede cheia, uns puxões na mangueira são o suficiente para
que o "moleque", no barco, se aperceba e decifre o código,
puxando-os até à superfície. Aqui, colocam a rede no gancho
da roldana, que se encontra suspensa do barco, e recebem uma
nova rede vazia. Este é um ciclo que se repete quinze, vinte
ou mais vezes durante o dia, já que o encher de uma rede pode
demorar entre quinze e trinta minutos, dependendo da quantidade
de algas no local de mergulho e da destreza, motivação e força
do apanhador.
A maioria dos apanhadores de algas está consciente dos riscos
inerentes a uma tão longa permanência a trabalhar no fundo
(geralmente entre os seis e os dez metros de profundidade),
mas isto não evita que por vezes os acidentes aconteçam. A
necessidade leva a que por vezes arrisquem profundidades maiores,
fazendo com que o risco de embolias apareça. É o "estar com
a bolha", como vulgarmente designam esta situação. E, por
vezes, os acidentes sucedem, fazendo com que os apanhadores
sejam obrigados a recorrer à câmara de descompressão (a única
do país encontra-se nas instalações da Marinha no Alfeite,
em Almada). Outras vezes regressam a locais de maior profundidade
e aí mergulham, permanecendo durante alguns momentos até que
o nitrogénio (azoto), acumulado nos vasos sanguíneos, se liberte.
Um risco que pode levar a consequências muito maiores do que
umas fortes dores nas articulações. Consequências para toda
a vida ou, eventualmente, à sua perda.
O trabalho dos moleques a bordo é também duro e desgastante.
Para além de puxarem para bordo os sacos de rede de três apanhadores,
uma vez que cada moleque fica encarregue de um dos lados do
barco, têm ainda a função de arrumarem convenientemente as
redes a bordo, de forma a que o barco mantenha o equilíbrio
e que o espaço seja aproveitado da melhor maneira, para que
se ajustem o maior número de redes possível.
São os moleques que puxam das profundezas as mangueiras com
os sacos de algas e os apanhadores ligados ás suas extremidades.
No meio da profusão de sacos de rede que cobrem o convés do
barco, poder-se-ia confundir a proveniência de cada um. -
De quem é cada saco? - Mas isto não acontece, pois cada um
tem no fundo uma pequena corda de uma cor determinada que
o identifica e o remete para o seu dono.
A meio do dia, por volta da uma da tarde, o barulho dos compressores
é silenciado por uns breves momentos. É a altura em que os
apanhadores de algas sobem a bordo para uma refeição rápida
e parca, porque não há tempo para digestões nem demoras, pois
"…é no fundo que se ganha dinheiro." Contam-se inclusive histórias
de alguns apanhadores mais garganeiros que, no início de cada
época, quando a alga é mais abundante, nem sobem para cima
do barco e se alimentam dentro d'água.
O descarregar das algas é mais uma das etapas onde o esforço
se repete de forma determinante. Em alguns locais onde existem
portos de pesca, o esforço é minimizado pela utilização de
meios mecânicos (gruas ou similares) no cais. Aqui, são as
máquinas que retiram as redes cheias de algas dos barcos para
os tractores ou camiões que as levarão até ao local onde são
descarregadas e estendidas para secar. Contudo, na Azenha
do Mar e na Carrapateira são os homens, os mesmos que já passaram
as tais seis a oito horas a trabalhar sujeitos à pressão das
profundidades, que executam este trabalho. Os sacos são descarregados
do barco para a chata e da chata para o tractor, tudo à força
de braços. São sessenta a oitenta quilos de algas molhadas
e escorregadias carregadas às costas, sobre um piso irregular
e molhado sujeito aos fluxos do mar. Uma sucessão de esforços
quase sem paralelo.
A secagem das algas dá a esta actividade um cariz familiar
pois, na maioria dos casos, são elementos da família do apanhador
que as retiram das redes, as espalham para secar e as voltam,
para que esta secagem seja mais ou menos uniforme. Mas aqui
reside também um dos saberes que só os mais experientes detêm:
as algas não podem chegar à fábrica muito húmidas (a Iberagar,
em Coina, é actualmente a única unidade industrial transformadora
de algas em Portugal). Por outro lado, se chegam demasiado
secas quem perde é o apanhador, pois o seu peso fica bastante
reduzido (em média, o peso das algas secas corresponde a 1/3
do seu peso enquanto húmidas). Assim, é necessário encontrar
um ponto de equilíbrio que permita que estas não sejam rejeitadas
na fábrica, e quem disto sabe são, normalmente, os familiares
mais idosos. É vulgar verificar-se que o volume de um monte
de algas não é directamente proporcional ao seu peso, dependendo
de quem as tratou.
A apanha submarina de algas, em todas as suas fases de recolha,
é uma actividade onde os limites físicos do ser humano são
levados ao extremo. São horas de trabalho extenuante, com
uma repetição de movimentos executados num meio adverso e
sujeito a variações constantes de pressão atmosférica em que,
frequentemente, as regras elementares de mergulho não são
cumpridas. É um esforço enorme, em circunstâncias a que o
ser humano não está por natureza habituado, que transforma
a apanha de algas num dos trabalhos mais árduos, duros e arriscados
que podemos presenciar em território português.
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